Textos meus
Uma Introdução à Filosofia da Libertação de Enrique Dussel
Tentarei apresentar e publicar nos anais deste congresso da Metodista todos meus textos que disponibilizei aqui, por isso, os tirei agora. Aos que conseguir, depois insiro os atalhos aqui e aos que não, os devolvo. Abraço.
Caro Hugo Allan Matos,
Gostaria de fazer uma pequena crítica ao texto, mas apenas no sentido apontado no texto, quando se refere ao termo “crise”. Ou seja, minha crítica não é pessoal, apenas gostaria de provocar o bom debate.
A civilização ocidental-européia destruiu os povos da América, mas isso não é privilégio seu. Os Astecas haviam destruído os povos anteriores, que haviam destruído os anteriores. Os Incas escravizavam outros povos. À luz de nossos costumes de hoje eram povos bárbaros, que assassinavam grande parte das pessoas que nasciam para oferecer em sacrifícios religiosos. Aceitar tais culturas significaria aceitar a antropofagia, a tortura como instrumento regular dos estados indígenas. Será que a aceitaríamos hoje.Neste caso, devemos aceitar as tiranias que escravizam pessoas e extraem clitoris de mulheres, por exemplo?
Veja, este é um assunto muito complexo e não podemos sair simplesmente condenando o europeu colonizador, pois ele fez o que fazemos diuturnamente, que é afirmar nossos valores. Nós criticamos o padrão ocidental-europeu, mas será que não lutamos por ele todos os dias? Se o combustível sobe nos postos de abastecimento, não vociferamos contra os políticos? isso autoriza a intervenção no Oriente Médio, que destroi e semeia a discórdia e a morte, inclusive de indefesas crianças.
E quando contruímos nossas casas, não estamos igualmente destruindo a natureza? Se defendemos os povos indígenas (e eu defendo), não deveríamos dar nossas terras aos índios? No entanto a maioria, mesmo entre os que criticam o padrão ocidental-europeu, não exita em defender sua casa e sua propriedade, apelando mesmo para a força pública.
Eu penso que nós, ocidentais-europeus, assim como os orientais e os ameríndios, estamos todos no mesmo ponto de completa ignorância em relação ao problema no qual estamos envolvidos. No final das contas, pelas leis naturais, não temos escolha, e vamos todos morrer. Toda a vida, e não apenas a humana, se alimenta de outras formas de vida. Para sair dessa lei teríamos de romper nossa ignorância e poder entrar na própria base da realidade, que supera a razão. Isso seria ir efetivamente “além do bem e do mal”, mas neste caso nada está errado, nem certo, apenas está.
Espero ser compreendido, mas o fato é que a filosofia ocidental se deparou há tempos com um muro. Ela não consegue mais avançar, a não ser que trasponha esse muro. E para transpô-lo ela tem de poder ir adiante do simples “natural” e admitir que existe algo chamado “sobrenatural”, o qual poderá um dia estar disponível ao ser humano, se ele acreditar nisso, e implementar uma ação coletiva, e sob o primado da razão, no sentido de se por a caminho em sua direção.
Um abraço.
João mezzomo
Porto Alegre
João, desculpe-me a demora. Penso que já saiba minha resposta. Mas no próprio texto que criticas, tem a resposta. A oposição feita ao eurocentrismo não é no sentido de querer resgatar algo do que foi, ou apenas de culpabilidade. Mas é a de evidenciar a dominação da imposição de valores válidos universalmente, do desrespeito às alteridades…E a partir desta evidenciação, a filosofia servindo aos movimentos populares, deve afirmar as culturas populares contra a indústria cultural (braço da modernidade capitalista) por sua posição de exterioridade, e a partir deste serviço, vislumbrar novos caminhos que permitam eticamente novos rumos para a sociedade. Quanto ao que afirmas como “sobrenatural” a filosofia da libertação chama de transcendência. Que é explícita no rosto do outro, que deve ser respeitado. O Eurocentrismo é totalidade ontológica vigente, a América Latina, Ásia, África…e todos os povos e culturas oprimidos do mundo, podem, por sua condição de exterioridade, fazer diferente, e este modo diferente, só pode ser metafísico. Pois transcendendo ao contexto atual é que conseguiremos um novo. E não buscando melhorá-lo, pois é impossível. Acho que é isso João, um abraço.
Me esqueci de dizer que a crítica acima é ao texto
UMA INTRODUÇÃO À FILOSOFIA DA LIBERTAÇÃO
LATINO – AMERICANA DE ENRIQUE DUSSEL
Desulpa, mais uma vez me enganei.
Minha crítica é ao texto
“Constituição, crise e superação da racionalidade moderna a partir da
filosofia da libertação de Enrique Dussel”
Abraço
João Mezzomo
Então, se ler a o “Uma Introdução….”, compreenderá melhor a proposta. Um abraço.
Hugo,
Eu entendo sua posição, mas acho que essa possibilidade nova vai “além do bem e do mal”, para usar um termo de Nietzsche (mas isso não significa que concordo com seu pensamento, em todos os aspectos e desdobramentos). Ou seja, somente quando compreendermos como uma realidade viva que estamos todos rigorosamente no mesmo pé, que não existem explorados e exploradores, poderemos acessar isso que você chama “transcendência” e eu chamo sobrenatural,ou mágico. Prefiro usar esses termos, pois mostram mais claramente do que se trata, e eles foram muito maculados pela racionalidade, que supõe equivocadamente que somente existe o pensável. Pelo contrário, penso que a essência de tudo é impensável e lidar com ela seria uma “nova ciência”, ou seja, uma nova modalidade de conhecimento que o ser humano deveria desenvolver, mas para fazer isso ele deve sair para fora deste julgamento do mundo, dos certos e dos errados, etc. Não sabemos nada ao certo quanto às questões fundamentais da existência. Neste terreno somos todos vítimas de uma “espessa ignorância” que caracteriza a espécie humana, desde que temos notícia. Diante disso, e da realidade de nossa morte iminente, não existem vencidos nem vencedores.
Na prática todos somos explorados e exploradores, em alguns aspectos. Aliás, o que impede os “explorados” de se libertarem não é a força do pretenso “explorador”, mas justamente este mesmo estado de ignorância quanto à condição real do ser humano, que mantém explorados e exploradores no mesmo pé.
Um abraço.
João
João que riqueza! Antes de continuar, obrigado pela prosa. Então, compreendo o que diz e já me angustiei a respeito. Entretanto, há alguns “princípios materiais” que DEVEM ser respeitados: a vida e a alteridade. Ou seja, o respeito às diversidades e garantia de que tod@s vivamos bem. Assim, mediante estes princípios há a necessidade de conscientizar-nos de todas as dominações, inclusive as que praticamos e a partir desta consciência, que não é só racional, auxiliarmos a garantia de respeito às alteridades. Penso que estamos falando quase a mesma coisa, só discordamos na “teoria da dependência”. Estou escrevendo sobre em minha dissertação, logo mais posto algo aqui. Um abraço solidário. Hugo.
Hugo,
Eu que agradeço por poder debater. Nos dias de hoje isso é raro, pois as pessoas fogem de um aprofundamento como o diabo da cruz (ou será que sempre foi assim?). Ficam “surfando” numa superficialidade que quer as coisas fáceis, e assim acabam vendo no mundo apenas aquilo que querem ver, ou seja, aquilo que já pensam, que é o que todo o mundo pensa. E no meio acadêmico na maioria das vezes não se consegue sair de uma visão de especialista, multifacetada, onde qualquer tentativa de olhar o todo parece muita pretensão, ou “coisa de maluco”.
Também acho que estamos falando “quase” a mesma coisa. Por exemplo, é fundamental esse respeito a tudo, mas somente isso não muda a condição humana é preciso algo mais. E esse “algo miais é justamente nossa “pequena diferença”, que é algo sutil, mas muda tudo (algo que pelo visto você já pensou ou intuiu no passado, mas depois deixou de lado, eu sei como é…rs..). Por exemplo, quando eu digo “sobrenatural”, ou “mágico”, quero dizer justamente que ele não precisa se ater a certos “princípios materiais”, que são coisas que acreditamos, mas que não há nada a rigor que garanta que eles sejam princípios irrevogáveis. Mesmo por que, se eles são irrevogáveis, o ser humano está perdido, e suas esperanças são vãs. Pois tais princípios nos dizem que tudo o que vive morre, e não pode retornar, e que mesmo a espécie humana como um todo um dia desaparecerá.
Veja, as pessoas acreditam que vão continuar de alguma forma depois de morrer, mas não sabem como, nem se é simples esperança ou ilusão. Se existe algo de real nessa esperança, deveríamos olhar para isso de frente, pois nada nos garante que Deus, ou seja lá como quisermos chamar um princípio sobrenatural, venha ao final nos salvar. A filosofia, que é aquela que deve buscar as respostas de tudo, sob o estrito primado da racionalidade, fugiu desse debate e prefere separar o todo em partes, submetendo a si mesma a uma cegueira que é o resultado da fuga de sua tarefa essencial.
Bem, não quero tomar seu tempo, pois você está em meio à tarefa de redigir sua dissertação. Mas se quiser continuar, quando der, por favor me escreva.
Abraço.
João.
João de forma alguma está tomando meu tempo, pois como filósofo, o pensar esats questões é parte de minha vida e a compõe. Aliás, e já entrando no assunto central: fugir delas, seria uma covardia que só garante que tudo continue como está. E como você disse acima, muitos têm feito isso. A fluidez, denunciada por um Baumam, é de fato, valor perseguido em nosso tempo, alienação eficaz! Bem, quanto à transcendência, concordo que é algo a ser pensado pela filosofia hoje. Tenho pensado muito isso. Já leu Emmanuel Lévinas? Totalidade e Infinito (obra do autor) me é muito caro, bem como o é a filosofia da libertação. Estou rpeparando um livro sobre esta questão, no campo de filosofia da religião. Por hora, a dissertação e os afazeres burocráticos de minha profissão têm me mantido muito ocupado. Mas quero, no ano que vem, lancá-lo. Questões como a antropológica: corpo-alma, estarão presentes no que, por enquanto estou chamando: “Por amor, o ódio: uma história recente da religiosidade dos seres humanos”. Além desta questão antropológica que perpassará todo o projeto, pretendo abordar o ecumenismo e a religiosidade na juventude. O que acha?
Hugo,
Acho muito interessante e a religião em especial me interessa muito. Aliás, eu acho que ser filósofo é antes de mais nada ter essa curiosidade diante de tudo, sem julgamentos. Na medida em que a filosofia “torce o nariz” para certos assuntos ela deixa de ser filosofia no verdadeiro sentido da palavra, que é esse “amor ao conhecimento”, esse deslumbramento diante de um mundo misterioso.
Espero que consigas concretizar esse projeto de publlicar teu livro. Eu lançei meu primeiro livro no ano passado, um livro que fiquei quase 30 anos escrevendo. Se quiseres ter uma idéia sobre ele tem alguma coisa nos seguintes links:
http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos
http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2011/01/27/sorteio-quem-tem-ouvidos-um-salto-do-pensamento-para-o-inconcebivel/
http://www.martinsfontespaulista.com.br/ch/prod/400720/QUEM-TEM-OUVIDOS.aspx
http://50.56.73.64/magento_feicm/raiz/diversos/quem-tem-ouvidos-um-salto-do-pensamento-para-o-inconcebivel.html
Foi uma edição de 1000 exemplares e, apesar de ser um livro de filosofia, massudo e caro (estava R$ 59,90) a 1ª edição esgotou em 10 meses, o que me causou surpresa, e à minha editora.
Para resumir a idéia central do livro é que a civilização ocidental-européia, que lá é vista como um elo de uma cadeia evolutivo-cultural, começou quando uma parte da realidade foi posta de lado. Em termos da história da filosofia isso ocorreu quando Parmênides aconselhou a deixarmos de lado o não-ser, e tratar somente do ser, do pensável. Sócrates acolheu a tese de \Parmênides e o Ocidente veio assim, tratando somente do ser, o obstaculizando o não-ser, de modo que hoje somos cegos para o não-ser, ou seja, para o que não é inteligível. A tal ponto que nossa própria língua identifica “ser” com realidade. Mas a realidade é mais que o ser, ela abrange também o não-ser, que não é mas existe, por mais que isso nos pareça contraditório.
Nessa linha eu mostro como toda a cultura vem dessa pressão que o não-ser obstaculizado faz. Assim a arte, a metafísica (aqui incluo a filosofia e as próprias ciencias naturais) e a religião vem através de pessoas que se tornam, pela vida que tem, acessíveis a esse não-ser, ou abstrato. Por isso tenho um capítulo do livro que trata da religião (se chama “A semente de mostarda – O caminho da religião”).
Bem, mas não vou conseguir explicar um livro de 512 folhas aqui. Mas resolvi te escrever a primeira vez pois o blog fala em filosofia do Brasil, e me acho um filósofo brasileiro. No livro trato disso, e de como no Brasil os meios acadêmicos repetem modelos estrangeiros e tem preconceito contra o modo de pensar do brasileiro, que mistura tudo. Mas essa mistura é justamente o que a filosofia precisa hoje.
Bem, nos falamos.
Uma braço
Caro Alan,
Tudo bem com você?
Esses dias vi um texto seu no blog consciencia.org, do Miguel Duklós. Um texto que fala sobre a possibilidade de fazer filosofia autenticamente brasileira. Eu me interesso por esse assunto, pois julgo ter escrevito um livro de filosofia, que parte da filosofia já feita, desde os pré-socráticos, passando pela Idade Média, entrando na Era Moderna, e acrescenta aspectos fundamentais neste assunto, como a necessidade da filosofia encarar de frente a possibilidade de “ultrapassar a razão”. Mais que isso, ela aponta caminhos de desenvolvimento dessa necessária “nova ciência”. E mostra como esse é o destino do ser humano, e sua única possibilidade de realizar seus anseios mais caros.
Esteja eu certo ou não, acho inegável que é um livro ousado, de fôlego, sem precedentes na história da filosofia no Brasil. Isso é opinião não só minha, mas de algumas pessoas da área, que prefiro não declinar o nome, que me disserem isso “em particular”. Contudo, só no particular. Parece que o pessoal acha pertinente, não consegue levantar objeções, mas fica constrangido de falar abertamente, se sentem ridículos de apioar uma filosofia tão ousada, partindo de um desconhecido. Não será por isso que a filosofia dos dias de hoje é tão inexpressiva? Se ela perdeu a ousadia de enfrentar o mundo, o que ela poderá fazer a não ser repetir com palavras difíceis aquilo que todo o mundo acha normal?
Um abraço.
João Mezzomo
Porto Alegre
João, este ensaio tem muita coisa que eu mudaria hoje, mas muita que permaneço pensando como. Fico feliz em saber que escreveu. Por favor, divulgue o nome e onde encontra-lo para que eu e minhas/meus leitor@s possamos conhecer. Penso o mesmo. Agora na dissertação eu falo de um cientificismo religioso regado a baixa auto-estima intelectual, que legitimam pensamentos como o que diz que os Latino-americanos não têm asas metafísicas…As elites “ilustradas” internas de nossos países continuam podando, evitando, desmerecendo qualquer tipo de tentativa de emancipação cultural. Mas pergunto: até quando terão forças? E penso que nosso papel enquanto filósofos e filósofas, é por isso, de libertação. Libertar-nos desta postura eurocêntrica, potencializando as iniciativas de libertação cultural, política(-econômica), social.
Que tal ajudar-nos a fortalecer o NEFILAM? DO modo que puder…Quer ser um dos editores do blog? http://nefilam.wordpress.com
Caro Hugo Allan,
Desculpa por ter escrito teu nome errado.
Bem, gostaria de participar sim, me informe melhor como posso fazer isso.
Somente que, talvez voce tenha percebido, eu discordo muito de todo o mundo, é uma espécie de sina ..hehe….
Por exemplo, já te falei isso, não acredito em emancipação em relação ao padrão europeu. Acho que nós somos, culturalmente, europeus. Acho que somente a Europa Ocidental faz filosofia no sentido que entendemos a palavra filosofia. Isso não significa superioridade, nem inferioridade, é apenas um ponto evolutivo diferente da cultura. Mas o Brasil tem uma grande contribuição a dar neste desafio que é a filosofia. Ele tem o papel de dar o arremate final, por motivos que explico no livro.
Mas essa discussão não é fácil de fazer em poucas palavras, deveríamos fazê-la com mais tempo. Vou enviar pra ti uma parte de meu livro, que fala da filosofia no Brasil. Eu te escrevi na verdade pois acho que meu livro é tão adiante da filosofia de hoje, tão inusitado, que as pessoas não conseguem responder a ele. Somente ocorre que não foi concebido da noite para o dia, mas foi o resultado de 30 anos de reflexão. Acho que ele respondeu a todos os questionamentos da filosofia ou ao menos indicou o caminho para o seu equacionamento.
Posso estar errado? É claro que sim, mas neste caso somente os outros podem me mostrar isso, e pela consideração do próprio livro, não baseado em “pré-conceitos”. E digamos que eu esteja certo (pois isso é possível, ao menos em tese), o que deveria eu fazer? A quem deveria me dirigir?
Aguardo o teu retorno.
Abraço.
João
João discordar é de extrema importância para o pensamento filosófico. Aguardo enviar-me esta parte do livro para comentá-la. Um abraço. E boa Passagem, caso não nos falemos até ano que vem.
Extraído do livro “Quem tem ouvidos – Um salto do pensamento para o inconcebível”, de João Batista Mezzomo – Editora Besourobox, Porto Alegre. Páginas 421 a 433
CAPÍTULO 21 – CONSIDERAÇÕES SOBRE O FIM DO MUNDO
21.1 – O BRASIL E A FILOSOFIA NO BRASIL
Em vários momentos destacamos a importância do Brasil como a pátria por excelência de um novo descobrimento, metaforicamente fa¬lando. Se tal descobrimento é aquilo que falta ao Ocidente imple¬mentar, e se o Ocidente é aquele que faz filosofia, caberia a per¬gun¬ta: essa possível emergência do Brasil traria com ela uma nova filosofia?
É um fato que o Brasil ainda não amadureceu como nação, não a ponto de poder se mostrar produtivo também no terreno do pensa¬mento filosófico, que em nossa opinião é a culminância do amadureci¬mento de uma cultura, ao menos no que se refere às culturas modernas. Se, como nos disse Hegel, um povo só possui ciência se a possui em sua própria língua, então uma nacionalidade somente pode se tornar filoso¬ficamente produtiva quando puder pensar seus próprios pensamentos, e expressá-los nas palavras de seu idioma. No Brasil isto ainda não acon¬teceu, pois o pensamento pátrio se mostra até os dias atuais dominado por matrizes estrangeiras.
Qual seria a forma de pensar brasileira, e o que ela teria de acres¬centar ao pensamento filosófico? Bem, a forma de pensar de um povo pode ser descoberta desde sua maneira de agir no cotidiano da vida. O brasileiro, segundo a nossa avaliação, é o mais inteligente dentre os modernos. Sim, pois ele é o que mais consegue “interligar” coisas di¬versas. Por isso mesmo, nós já dissemos que o Brasil é a pátria do sincre¬tismo religioso, entre outras coisas. Aqui toda a cultura se constitui numa “mistura fina”, em que tudo é jogado numa espécie de “metafó-rico caldeirão”, onde as coisas aparentemente diversas convivem em pé de igualdade, numa realidade que ultrapassa os moldes da razão.
O brasileiro é na verdade um filósofo nato. A sua curiosidade e a sua capacidade de estabelecer ligações entre todas as coisas faz de muitos brasileiros teóricos admiráveis, mesmo tratando-se de pessoas simples. Porém, um pensamento deste tipo é claro que levanta a suspeição da filosofia tradicional, que está acostumada a separar tudo em partes, e inconscientemente teme o que uma mistura deste tipo pode suscitar. Pois a mistura, já vimos, carrega-nos para as vizinhanças dos perigosos pântanos do não-ser. E a razão tem suas armas, já vimos isso também, e uma delas é desmerecer quem a desafia. Assim, o pensamento oficial desmerece a forma de pensar do brasileiro. É comum ouvir-se dizer, no Brasil, que a argumentação de tal pessoa se assemelha a uma “dança do crioulo doido”, uma expressão que denuncia um preconceito não penas étnico, mas também em relação ao pensamento genuinamente brasileiro.
Sim, o pensamento do brasileiro é muitas vezes uma mistura, e muitas vezes essa mistura faz com que ele seja superficial. Mas esta superficialidade, não nos enganemos, tem uma profundidade insuspei¬ta. Pois ele se mantém sempre preso à totalidade, e, com sua maneira de agir, não abre mão dela em hipótese alguma. E é por isso que o brasileiro não deixa de ser católico para ser espírita, e umbandista, e tudo o mais. Por essa característica, tal pensamento tem uma pertinên¬cia que o poderá levar a assumir um papel importante no panorama do pensamento filosófico, da mesma forma e pelos mesmos motivos que fizeram Portugal assumir um papel de destaque na época dos desco¬brimentos. Misturar as coisas é o que teremos de fazer, para romper a racionalidade. E essa mistura deve ser feita não como mera especulação, mas como uma práxis. Poder misturar todas as coisas, inclusive a própria filosofia especulativa, dentro de uma vida que se aproxime da essência de tudo é algo que se faz necessário para que nos habilitemos a esse novo descobrimento. E neste particular o Brasil tem muito a ensinar ao mundo.
Porém, este pensamento filosófico, do qual o Brasil poderá se tornar a pátria por excelência, é um pensamento que se situará no fim do pen¬¬samento, no ponto em que ele é ação efetiva, nunca um pensa¬mento como o que se fez e ainda se faz no Velho Mundo. Pois o tempo da filosofia como mera especulação está chegando ao fim, e o fim da filosofia se mostrará justamente como o desaguar novamente numa práxis que lhe devolva o conteúdo e a essência. Mas, atente bem, a palavra fim tem um duplo sentido – acabamento e finalidade –, de modo que ser o fim significa também ser a continuação. Por isso, essa nova filosofia terá de “compreender” todas as partes dentro dela, inclu¬sive a própria filosofia atual, de tal forma que o modo de viver e pensar do brasileiro, como paradigma de um novo viver para o mundo todo, terá de se alçar a um novo patamar, que as englobe.
Também os círculos acadêmicos no Brasil são dominados pelo pensamento de matriz estrangeira. A ponto de termos dificuldade se tentamos procurar algum filósofo brasileiro com ideias originais, pois todos eles foram forjados dentro de um círculo acadêmico que só os deixou passar depois que demonstraram uma necessária submissão ao pensamento oficial, que é de matriz estrangeira. Ora, o verdadeiro filóso¬fo é justamente aquele que não se subordina ao pensamento oficial. Neste prisma, é fácil entender o que acontece com os candidatos a filó-sofos mais criativos no Brasil: eles são – por atos ou, no mais das vezes, pela falta deles – encorajados a mudar de área. Se forem mais insistentes, podem se tornar motivo de chacota ou mesmo de indignação, por demonstrar a petulância de pensar seus próprios pensamentos. Pen¬samentos próprios que são, sob o ponto de vista dos círculos acadê¬micos, pensamentos inadequados, pensamentos mal forjados, que mis¬turam coisas diferentes. Em suma, uma verdadeira “dança do crioulo doido”. Se tal reação encontrasse pela frente um Nietzsche, poderia levá-lo à loucura, como de fato o levou a Alemanha, por motivos seme¬lhantes. Mas acontece que o brasileiro não leva nada a sério, nem a si mesmo. Prefere “pegar leve” e fazer isso mesmo, mudar de área.
Um exemplo conhecido disso, e extremamente ilustrativo, foi o que sucedeu com Caetano Veloso, que na juventude começou a cursar Filosofia na Universidade Federal da Bahia. Como é uma pessoa criativa, com uma mente tipicamente brasileira, presumivelmente foi convencido que aquilo que pensava não era filosofia. Ou, ao menos, resolveu mudar de área. Foi para a música, onde compôs uma série de letras que tem profundidade e pertinência filosóficas. E em uma de suas músicas diz que “se você tem uma ideia incrível, é melhor fazer uma canção, está provado que só é possível filosofar em alemão”. Vemos então, mais uma vez aqui, como a arte pode resumir uma imensa gama de pensamentos em um traço, uma estrofe. Pois Caetano diz aqui, entre outras coisas, que a língua é responsável por aquilo que somos. E também, usando da ironia de um Sócrates, retorna ao início da filosofia para fazê-la voltar à sua essência. Pois a essência da filosofia é a curio¬sidade, que grassa na mente de todo o ser humano. Logo, qualquer na¬ção pode e deve ser filosoficamente pertinente, basta que tenha a ousadia de pensar.
Assim, os institutos de filosofia somente deixam passar os que se en-quadram no modelo, e forjam filósofos iguais a si mesmos, sem uma inspiração enraizada em sua genuína essência cultural, que é brasileira. Como disse Prometeu, no poema de Goethe, “homens farei segundo minha própria imagem; homens que logo serão meus iguais”. É assim que age, a rigor, toda a instituição. Porém, se é uma instituição brasi¬leira, e de filosofia, o esperado era que tivesse condição de acolher o pen¬samento genuíno e formar filósofos brasileiros, e não somente guardas e reprodutores de pensamentos alheios. É possível que essa maturidade da nação, necessária para que ela faça uma genuína e per¬tinente filosofia, venha a ocorrer ao mesmo tempo dentro e fora dos círculos acadêmicos. E se olharmos o que ocorre fora, nos dias de hoje, juntamente com a vontade que vemos também em alguns setores pen¬santes da nação, poderemos ser otimistas e esperar que este dia esteja próximo de acontecer.
E por falar em fazer acontecer o pensamento genuinamente bra¬sileiro, caro leitor, lembramos que este livro que você está a ler é um livro de filosofia. E o autor é brasileiro, e durante todo o seu especular tentou pensar seus próprios pensamentos. Por isso, não vou esconder que desejo candidatá-lo a ser um auxílio na tarefa de levar o pensa¬mento pátrio de volta para certa “senda perdida”. Ou seja, para um caminho que ele já trilhou, mas depois abandonou.
Para isso, como demonstração da pertinência de meu pensa¬men¬to, representando o pensamento genuinamente brasileiro, quero aqui nesta parte final brindar o leitor com um produto dessa especulação. Tal produto se refere ao que estamos falando, é claro, e permitirá outra compreensão do problema.
Pois bem, você já ouviu falar no “complexo de Édipo”, certamente. Tal termo foi introduzido por Freud e é um dos fundamentos da psica¬ná¬lise. Mas mesmo que você o conheça, vou fazer aqui uma breve expla¬nação, para os que não o conhecem como você. Pois bem, em Édipo Rei, Sófocles nos relata a história de Édipo, filho de Jocasta e Laio, que na fase adulta veio a matar seu pai e a casar-se com sua mãe, sem saber. Esta história muito interessante será retomada por nós adiante, com maior detalhamento, quando tentaremos convencê-lo, a você, caro leitor, que temos também a tarefa de socorrer certa esfinge, que no momento se encontra desesperada. Aguarde essa parte, pois agora temos de permanecer em Freud.
A partir da observação de seus pacientes, e das pessoas em geral, e dando-se conta de que os mitos têm relação com coisas que residem em nosso inconsciente, Freud formulou a hipótese de que todos nós, consciente ou inconscientemente, real ou simbolicamente, desejamos matar nosso pai e esposar nossa mãe. E isso lançou para o mundo do pensamento e da vida o “complexo de Édipo”, algo que é saudado por todos como um sinal da criatividade e genialidade de Freud, da qual ninguém duvida.
Queremos fazer algo semelhante aqui, e com isso lançar em “pri¬meira mão” o conceito de “complexo de Chronos”, um conceito que, pensamos, pela sua pertinência nos auxiliará muito, o que prova¬velmente o lançará aos cumes do conhecimento universal.
Pois bem, comecemos com a história do deus Chronos, que era o deus supremo do Olimpo antes de ser sucedido por Zeus. Alertado de que seria sucedido por um filho, Chronos devorava-os tão logo vinham ao mundo. Mas um dia sua esposa, a deusa Rhéa, revoltada contra o fato, uma vez grávida resolveu se refugiar em uma ilha. Tão logo teve o bebê, retornou a Chronos, o qual, sabendo que Rhéa estava grávida ao viajar, exigiu o filho. A astuta deusa, conhecendo o marido, entregou a ele uma pedra, envolta em panos. Diz a história que o desa¬tento deus a engoliu, pensando estar engolindo o próprio filho. E o bebê, que permaneceu na ilha onde foi cuidado pelas ninfas, tornou-se adulto e veio a derrotar o pai, instituindo dessa forma um novo mo¬mento para o Olimpo: esse filho era Zeus.
O mito de Chronos tem imensos significados que aqui deixamos de considerar. Um aspecto apenas que queremos destacar é que ele, como todos os mitos, refere-se a possibilidades que residem no abstrato, e não meramente em “nosso inconsciente”, como pensa a psicanálise. E justamente, por residirem no abstrato, que é o fundamento de tudo, eles estão na espreita dentro de nós mesmos, e podem eventualmente vir a acontecer, de forma real ou simbólica. O que significa que todos nós temos o impulso de “comer os filhos” a fim de evitar a sucessão.
Tal mito explica um sem número de coisas. Explica, por exemplo, por que “a virtude não pode ser ensinada” segundo nos diz Sócrates no diálogo Menon. Lá Sócrates demonstra sua preocupação com o fato da democracia ateniense parecer pouco hábil para formar novos líderes, pois eles surgiam muito mais longe de Atenas do que lá. Também ele observa como os filhos de homens virtuosos, no sentido de se tornarem líderes da pólis, pareciam não absorver tal virtude e se tornavam homens inábeis para o poder, demonstrando um fato até hoje observado, quando filhos de homens destacados muitas vezes não conseguem o mesmo sucesso. E se levarmos em conta que Atenas foi derrotada por Esparta, uma oligarquia, na Guerra do Peloponeso, podemos perceber mais uma vez como eram pertinentes as preocupações de Sócrates. E a democracia teve de esperar 2.000 anos para reaparecer, em um modo que soube construir instituições, as quais permitem que se formem líderes políticos que as podem defender. E a ação das instituições de¬mocráticas é em alguma medida uma simulação daquela “ilha”, onde fica protegido o “Zeus” da ação nefasta de “Chronos”.
Tal ação nefasta ocorreria, em nossa tese, em virtude do “comple¬xo de Chronos”. Ou seja, o pai virtuoso – seja ele simplesmente um pai ou um líder político –, por mecanismos conscientes ou inconscientes, tenta evitar que seu filho o “destrone”. Na verdade todo o pai tem esse impulso, se a tese é correta, somente que o virtuoso, por ser virtuoso, é eficaz em sua ação, vindo em alguns casos a prejudicar o próprio desenvolvimento do filho. E também o modo de “conduzir” o filho para o que acha adequado é uma variação do complexo de Chronos, pois o que se busca nesse caso é também a afirmação daquilo que somos. Se o filho se constitui demasiadamente em função da expec¬tativa do pai, abrindo mão de muito de suas características pessoais e do que gostaria de ser, isso significa que ele foi simbolicamente “devorado”, passando a existir numa subvida, dentro do pai.
Mas tal mito, por ser um conteúdo do abstrato, pode fluir para a vida mesma de diversas formas, quer reais, quer simbólicas. Assim, ele pode acontecer dentro da vida mesma de uma forma mais expressa. Tenho um amigo que não queria ter filhos, e terminava seus romances quando a namorada mostrava inquietação com o fato. Mas uma, mais astuta, ficou grávida e fugiu… para a ilha de Florianópolis. No retorno trouxe o pequeno “Zeus”, que hoje é a alegria do pai. E no futuro provavelmente o sucederá.
Voltemos para a filosofia no Brasil. Dentro de nossas escolas de filosofia é claro que também ocorre em grande medida esse mecanismo. O professor catedrático e os institutos de filosofia se pautam por um modo redutor da capacidade dos alunos, sobretudo no Brasil. Então, quando um aluno demonstra uma criatividade acima do normal, que deveria ser saudada por se tratar de um instituto de filosofia, na maioria das vezes ele é reprimido, desaconselhado a tentar seus próprios pen¬samentos, ou aconselhado a mudar de área. Prefere-se o estudante me¬diano, ou que vê a filosofia como uma possível “profissão”, pois esses se mostram mais suscetíveis a aceitar um comando, que os ajustarão a esse modo redutor de ser. E veja, caro leitor, como no mito os círculos acadêmicos nem percebem se é um filho, ou se é uma pedra, pois eles estão mais preocupados em reproduzir o “pensamento oficial”. Desse modo, no Brasil, quem tem curiosidade filosófica deve buscar qualquer ambiente, menos o dos institutos de filosofia.
Seria o caso, então, de esperar pelo aparecimento de um “Zeus da filosofia do Brasil”. Alguém que fugisse do abraço dos círculos acadêmicos e juntasse forças, no isolamento de uma ilha, para depois vir a derrotá-los. Ou mesmo que se infiltrasse neles, ao modo de uma pedra, até tomá-los. Ou então, como a filosofia acompanha a vida, saísse da filosofia ou mesmo nem entrasse nela, mas fosse direto para a prática, de modo a “fazer a hora” e ocasionar uma mudança na própria filosofia, depois. Ou, quem sabe, tal Zeus venha a ser, no caso do Brasil, todas essas coisas ao mesmo tempo.
De qualquer modo, é um fato que isso não aconteceu até hoje no Brasil. E não podemos culpar os círculos acadêmicos por isso, pois eles fazem o que devem fazer, defendendo a instituição que é a filosofia como a conhecemos até os dias atuais, que obstaculizou o não-ser. Se uma nova filosofia deve surgir, ela deve poder vencer o seu “Chronos” de algum modo. No caso de Zeus, o estratagema da mãe, junto com o cuidado das ninfas e com a capacidade de Zeus, derrotaram o velho deus e impuseram uma nova ordem. Ou seja, se a filosofia ainda não surgiu no Brasil como algo que se note, não são os círculos acadêmicos os culpados, mas os candidatos a Zeus e suas circunstâncias. Pois onde ela surgiu e se tornou madura, como na França e na Alemanha, possi-velmente os círculos acadêmicos também se pautassem por matrizes estrangeiras, até que começou uma corrente que ao final pode pensar seus próprios pensamentos.
E é bem possível que essa corrente já exista também no Brasil, de algum modo. Nós falamos que queríamos ajudar a reconduzir o pensamento brasileiro a certa “senda perdida”. Dissemos isso em referência a Heidegger, que nos fala dessa senda, em outro sentido. Mas, antes de tratarmos disso, vejamos se podemos achar alguns candidatos a Zeus do pensamento brasileiro. Antes, porém, de citarmos alguns candidatos, que são todos pessoas conhecidas do leitor, devemos lembrar que o pensamento brasileiro se situa no fim do Ocidente, pre¬cisamente no ponto em que a práxis se junta com a especulação. Então, ele é muito pouco metafísico e muito mais ação, o que pode gerar a incompreensão de nossos “entendidos”, que esperariam ver entre os candidatos pessoas oriundas dos círculos acadêmicos.
Então, seria o caso de escolher como nosso Zeus o Professor Darcy Ribeiro, “que fugiu do hospital pra se tratar” ?
Ele é um bom candidato, pois defendia a capacidade e a inteli¬gên¬cia do povo brasileiro, e deplorava os estrangeirismos e a mistificação. Ou seria Caetano Veloso, que fugiu do abraço sufocante dos círculos acadêmicos e foi fazer filosofia na música? Ou seria ainda Paulo Coelho, que hoje ganha o mundo e assume status de ícone globalizado, ainda que os “entendidos” tenham ataques de histeria só de pensar nisso? Veja, não estou brincando, Paulo Coelho é um homem e uma persona¬lidade de respeito, e seus livros conquistaram o mundo por uma carac¬terística preciosa que tem o Brasil, que é essa capacidade de misturar o real com o mágico, mas de um modo que não o separe como algo exótico, mas integrado na vida mesma. Ou, ainda, e como último exem¬plo, seria nosso Zeus o presidente Lula, que se manteve firme no iso¬lamento de suas ideias autenticamente brasileiras, até se tornar o maior presidente da história do Brasil?
Contudo, para sermos honestos em relação à nossa pretensão, de sermos filósofos com pensamento genuinamente brasileiro, caberia ainda considerar como candidato a Zeus este filósofo que vos fala, que apesar de ter concluído o curso de filosofia – e com brilhantismo –, não se dispôs a ser devorado pelos círculos acadêmicos, nem se sentiu em condições de entrar neles como uma pedra, e preferiu se fechar numa ilha de pensamentos, e agora está tentando sair dela, através de seu primeiro livro. Bem, minha modéstia me impede de votar nesse pleito. Mas você pode muito bem fazê-lo, caro leitor. E, se você por ventura resolver apostar em mim, uma das formas de fazê-lo é falar “bem” de meu livro a seus conhecidos.
Brincadeiras à parte, o fato é que é bem possível que a filosofia não venha a acontecer no Brasil da forma como aconteceu em outros lugares, como na Alemanha ou na França. O motivo seria o fato já diversas vezes referido, de nos situamos no fim do Ocidente, num ponto em que os edifícios de especulação devem dar lugar a uma práxis que os simplifique. Se for isso, não haveria sentido algum querer fazer filosofia meramente por fazer, mas – isto sim – deveríamos con¬siderar a filosofia já feita, e propor uma ação. Por isso citei os quatro candidatos acima, como exemplos de autenticidade e perti¬nência do pensar e agir brasileiros. Mas poderia ter citado muitos outros. Poderia ter citado mesmo todo o povo brasileiro, que em sua forma de viver, a qual se mantém próxima à essência, acaba implementando um modo de vida que também se mantém próximo da felicidade, mesmo que às vezes seja carente de riqueza e bens materiais.
Voltando aos institutos de filosofia, imaginamos que para que eles mudem, de modo a acolher a brasilidade, ainda se faz necessária uma produção acadêmica mais consistente, que prepare esse momento. E neste particular queremos mais uma vez enfatizar que não estamos pre¬gando o abandono da razão. Como já dissemos, o ser humano deve ultrapassar a razão sem perdê-la, pois, se a perdesse, retornaria ao estágio da animalidade. E o mesmo vale para a questão da pobreza material, que costuma acompanhar a nação luso-brasileira, e pelos mesmos mo¬tivos, que a rigor são o desapego e certa incompatibilidade com o mundo concreto. Se fosse para sermos seres irracionais e despos¬suídos, não pre¬cisava a natureza ter criado o ser humano. O que o Brasil tem a contribuir, tanto em um caso como no outro, é a possi¬bi¬lidade de um estado em que matéria e razão possam ser postas a serviço do ser hu¬mano, e não o contrário. Para isso ele mesmo, Brasil, deve atingir a maturidade também no campo econômico, pois este desapego redunda em desigualdades sociais imensas, que devem ser superadas antes que possamos efetivamente “pensar nossos próprios pensamentos”.
Também este “não considerar seriamente o mundo” acaba redun¬dando numa desconsideração de si mesmo, o que faz com que o pró¬prio brasileiro aceite e mesmo reproduza certo desmerecimento de sua condição. Mas, se o brasileiro parece ter esta falta de autoestima em alguns aspectos que não considera importante, vemos o contrário em outros. Assim como em Portugal, o brasileiro também se torna um arguto e corajosos combatente se algo que considera importante é ameaçado, como em conflitos que põe em risco suas fronteiras e sua integridade nacional. O que demonstra que a natureza deu armas e agressividade à cultura luso-brasileira, para defender sua integridade e sua essência. Presumivelmente, fez isso por algum motivo, pois a natureza não costuma gastar seus recursos ao léu. O motivo é a capaci¬dade que tem esta “flor da beira do abismo”, que é a cultura luso-bra¬si¬leira, de implementar certa travessia. Uma travessia que rompe a racio¬nalidade, mas que tem que ser feita sem perdê-la. Por isso, no que tange às cátedras universitárias, não estamos pregando aqui o abandono da razão, a aceitação de qualquer “livre-pensamento” como uma filo¬sofia, mas sim a capacidade de sair de dentro das pequenas disputas acadêmicas, balizadas por um pensar estrangeiro, e ter a maturidade de “compreender” este pensamento brasileiro, que tem uma enorme con¬tribuição a dar, se puder tornar-se maduro.
Nessa mesma linha de desmerecimento do Brasil, e de como nossos maiores defeitos são também nossas maiores virtudes, queremos citar ainda a célebre frase “O Brasil não é um país sério”, popularmente atribuída a Charles de Gaulle. Deixemos de lado a autoria da frase, que é polêmica, mas olhemos apenas o fato de que ela é apontada no Brasil como uma verdade. Uma verdade que nós também concor¬damos. De fato, sob o ponto de vista do ser, o Brasil não é um pais sério. É que o Brasil situa-se justamente nas vizinhanças do não-ser, por isso o ser o olha com suspeição. Mas, pensemos um pouco, o que é ser sério afinal? É antes de mais nada ser cego, pois, se pudéssemos ver a realidade, veríamos como o mundo que consideramos real é algo que se desman¬cha, e não existe motivo para tomá-lo como algo demasiadamente sério. Assim, todos os valores que nos induzem a um padrão fixo são ilusões. E, por serem ilusões, a sua observação estrita conduz necessariamente à tolice, ou à hipocrisia, ou a ambas, pois é impossível seguir estritamente o padrão ditado por tais valores da “razão prática”. O brasileiro sabe disso desde as fraldas, o que faz dele um sábio nato. Pois a constatação desta mesma verdade custou a Nietzsche seu próprio equilíbrio e inte¬gridade física e mental. Quando ele foi à lingua dos gregos antigos, que se assemelha em alguns aspectos ao português, ele concebeu outra forma de ver o mundo, uma forma que ultrapassa a atual, mas também pode perdê-la. Uma das formas de ultrapassá-la sem perdê-la, possivelmente, seria permitir que esta planta que anuncia o futuro –, o português – projeção mesma da que ficou no Éden, possa vicejar no seu terreno propício. Este terreno é a brasilidade.
Falemos agora de nossa possível “senda perdida”. Se tomarmos qualquer livro que trate da história da Filosofia do Brasil, veremos que a primeira escola que se consolidou no país foi o ecletismo, uma corrente igualmente de matriz estrangeira, que pouco sucesso fez no exterior, mas que foi uma espécie de filosofia oficial do Brasil na pri¬meira metade do século XIX. Vejamos o que diz sobre o ecletismo no Brasil um trecho do Pe. José Vergílio da Silva, colhido na internet:
Seu objetivo era a partir da filosofia eclética conciliar o que julgavam verdadeiro em todos os sistemas, considerados como manifestações parciais de uma verdade única e ampla. Em resumo, (…) é o ecletismo uma reunião de teses conciliáveis tomadas de diferentes sistemas de filosofia, e que são justapostas, deixando de lado, pura e simplesmente, as partes não conci¬liáveis destes sistemas.(…) É recolher todas as grandes ideias suscitadas pelo progresso das idades, e em fundi-las no crisol de uma ideia nova.
Foi a filosofia que mais despertou nosso interesse, devido ao seu ver-balismo e lirismo e à sua superficialidade, algo tipicamente brasileiro.
Como vemos, o ecletismo é um modo de pensar que mistura tudo, descartando aquilo que não se enquadra numa consideração global. E isso é o que deve efetivamente ser feito, se quisermos acessar a “verdade que está no todo”. Pois cada pensamento tem razão, mas apenas em parte. Porém, a razão dá status de todo para a parte, de modo que cada filosofia preenche as partes vazias com considerações que lhe dão apa¬rência de verdade. Essas considerações “não conciliáveis” devem ser des¬cartadas para que a essência de cada coisa possa se encaixar numa visão da totalidade.
Porém, após aproximadamente meio século de domínio, o ecle¬tismo decaiu, pelo surgimento de ideias novas, uma delas o positivismo. E uma das críticas que se fez a ele foi justamente a superficialidade e a falta de um espírito crítico, constituindo-se em uma filosofia que serviria aos interesses das classes dominantes conservadoras.
O que ocorre é que o pensamento genuinamente brasileiro não é um pensamento que está ligado ao mundo concreto. Da mesma forma que o pensamento português, o brasileiro tem certa dificuldade de agir num mundo segmentado e hierarquizado. A classe média, que costuma ser o extrato social mais ligado ao concreto, muitas vezes é inexpressiva, ficando a vida nacional polarizada entre o povo e a elite, ambos representando mais o espírito da nacionalidade e da língua, que privilegia o abstrato. A nação luso-brasileira é avessa a toda a ligação mais apaixonada com este mundo, parecendo, sob determinado ponto de vista, comandada por forças conservadoras. Por isso mesmo o ecle¬tismo fez sucesso num tempo em que se buscava ainda a iden-tidade genuinamente brasileira. Porém, aqui também o fluxo central do pen-samento ocidental-europeu, que privilegia a separação das coisas em partes estanques, acabou por desmerecer um tipo de pensamento que – apesar de ter nascido fora do Brasil – encontrou aqui sua ver¬dadeira pátria. Acreditamos que esta primeira manifestação do ecle¬tismo seja mais uma vez aquela espécie de ensaio que antecede a reali¬dade. Se um dia o pensamento genuinamente brasileiro encontrar o seu caminho de amadurecimento, certamente ele será alguma forma de ecletismo.
Na parte que diz “que fugiu do hospital pra se tratar”, faltou a nota de rodapé seguinte:
A cara do Brasil
(Vicente Barreto e Celso Viáfora)
Eu estava esparramado na rede
Jeca urbanoide de papo pro ar
Me bateu a pergunta meio a esmo:
Na verdade, o Brasil o que será?
O Brasil é o homem que tem sede
Ou o que vive da seca do sertão?
Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo
O que vai e o que vem na contramão?
O Brasil é o caboclo sem dinheiro
Procurando o doutor nalgum lugar
Ou será o professor Darcy Ribeiro
Que fugiu do hospital pra se tratar?